Autor: 
Claudio C. Conti

Alguém bate a nossa porta. Sussurrando palavras de contrariedade por ter de levantar de uma poltrona confortável, assistindo as últimas notícias ou a um programa de entretenimento, apesar do grande esforço para cruzarmos o espaço que nos separa da poltrona à porta, conseguimos atingir o objetivo para constatar, com enorme surpresa, que não havia ninguém. Fechamos a porta resmungando palavras inaudíveis e comentamos com a esposa, marido ou filhos, com alguém enfim. Perguntamos se também ouviram as batidas na porta e obtemos uma resposta afirmativa.

Sim, alguém bateu à porta, isto é um fato. Também é um fato que esse alguém não foi visto por ninguém.

É mais ou menos desta forma que Kardec nos explica acerca da existência de Deus no Capítulo II do livro A Gênese. Ninguém o vê, mas podemos inferir a existência de uma entidade superior apenas pelo efeito dos seus atos. Tão simples quanto possa parecer e tão complexo quanto se possa imaginar.

Onde estaria a simplicidade? Onde estaria a complexidade?

Quando analisamos o exemplo da porta descrito acima, é fácil de supor algumas possibilidades para o ocorrido:

Conjectura A: A pessoa que bateu à porta era uma criança fazendo travessuras, simplesmente isso.

Conjectura B: A pessoa que bateu à porta desistiu de seu intento, simplesmente isso? Talvez...

A simplicidade da conjectura B está intimamente relacionada com uma gama muito variada de possibilidades, somente para ressaltar alguns, podemos supor:

1. Estaríamos esperando alguém?

2. Estaríamos esperando algo que alguém traria?

3. Há alguém doente e poderia ser notícias?

4. Alguém da família estaria fora de casa?

5. Um vizinho precisando de açúcar, mas voltou para atender ao telefone e Ensaios sobre questões espíritas voltará a bater em alguns minutos?

Complicado não? Poderíamos continuar com a lista, mas a complexidade já ficou demonstrada. Algumas das hipóteses não traria outras consequências, porém, algumas outras poderiam até trazer algum prejuízo, nem que o prejuízo seja ter de levantar para atender a porta novamente.

Deixemos, agora, de lado o exemplo pueril da porta e nos transferimos para uma questão que, embora similar, pode trazer consequências desastrosas quando uma hipótese errada é escolhida: a questão relacionada ao fato de não podermos ver Deus, mas conhecê-lo pelos seus efeitos. Impossível de haver consequências desastrosas??? A história nos mostra que não.

A literatura está repleta de relatos sobre as inconsequentes atitudes dos homens, ao longo dos séculos, em nome de um deus. A título de exemplo podemos citar a Inquisição, as Guerras Santas, englobando países e até mesmo continente inteiro, como ocorreu na Europa durante vários séculos, sem mencionar tantas outras, em menor escala, localizadas em algumas religiões e seitas.

Isto, sem mencionar o que ocorre até os dias de hoje, século XXI, com tanto avanço tecnológico, onde a informação está disponível para todos, embora, ainda, muitos não tenham acesso, podados por pessoas interessadas na manutenção do poder à custa da ignorância alheia. Vemos grupos contra grupos, países contra países, luta descabida por uma ideologia religiosa.

No próprio Velho Testamento, no livro Gênesis, Capítulo 1 item 27, encontramos uma descrição de como os homens foram criados, dizendo que Deus criou o homem à sua imagem e semelhança. Para aqueles que interpretam as escrituras no sentido literal das palavras, crêem na semelhança física do homem com Deus, tanto que a mais comum imagem que se faz da divindade é a de um homem velho, de longas barbas brancas, vestindo um lençol branco.

Ainda no Genesis, Capítulo 3 itens 14, 15, 16 e 17, há o relato de uma desobediência do homem, que no caso seria Adão, comendo da árvore do conhecimento do bem e do mal, o que chamam de “fruto proibido”. Diante de tal fato, Deus tomaria características vingativas e proclamaria uma série de castigos que seriam impostos tanto ao primeiro homem quanto a primeira mulher.

As escrituras não são para serem analisadas no sentido literal, mas interpretando os ensinamentos. Ensaios sobre questões espíritas.

O simples fato de não reconhecermos em Deus a perfeição absoluta em todos os sentidos, atribuindo características humanas, pode certamente levar a erros lastimáveis, seja para um grupo de pessoas ou para um único indivíduo.

Kardec, no livro A Gênese, Capítulo 2, explica e enumera as qualidades de Deus:

  • Inteligência suprema e soberana;
  • Único;
  • Eterno;
  • Imutável;
  • Imaterial;
  • Onipotente
  • Infinitamente justo e bom.

A interiorização da infinita justiça e bondade do Criador é de capital importância para que possamos olhar para o nosso mundo sem, na melhor das hipóteses, nos chocarmos e podermos aceitar os fatos que não podemos mudar.

Tomemos dois pontos como exemplo:

1. Percebemos ser uma realidade o fato de haver a ausência do bem em vários segmentos da nossa sociedade;

2. É comum ouvirmos expressões do tipo “Deus não faria isso comigo!” ou então “Como pode Deus fazer isso comigo?!”, independentemente se partilham de alguma crença religiosa ou não.

Em situações como estas, quando o indivíduo não possui o conhecimento necessário nem partilha de uma crença sólida, que pode se confundir quanto à soberana bondade de Deus e é nestes momentos que o ser se encontra como um barco à deriva, ao sabor das ondas, a mercê dos acontecimentos.

 

Continua em breve...

* Extraído do livro ENSAIOS SOBRE QUESTÕES ESPÍRITAS, Capítulo I, de Claudio C. Conti - www.ccconti.com

 

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